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O ALM como ferramenta de gestão para os investimentos de RPPS – Parte I

Escrito por
Álvaro da Luz


A Gestão de Investimentos em Regimes Próprios de Previdência vem sendo aprimorada nos últimos anos. Desde a demanda pela maior qualificação dos gestores, passando por avanços na governança institucional dos Regimes Próprios, e a utilização de ferramentas mais sofisticadas para o desempenho e construção das carteiras de investimentos, é notável a evolução das exigências acerca da gestão de investimentos.

Dentro deste arcabouço de melhorias está inserido o Programa de Certificação Institucional Pró-Gestão, o qual, embora trate de temas mais amplos em termos de governança de Regimes Próprios, também inseriu a exigência de uma ferramenta de gestão de investimentos – o ALM –  para os RPPS que desejem obter sua certificação institucional no nível II em diante.

Neste artigo vamos tratar  da sua origem e  finalidade. Nos próximos artigos vamos tratar sobre a sua técnica, formas de elaboração, implementação e limitações.

Boa leitura.

O que é o ALM?

ALM – Asset Liabilty Managment – que em uma tradução livre pode ser definido como um modelo de gerenciamento de ativos e passivos, é um instrumento para gestão e alocação de investimentos de forma que o ativo (valores a receber) esteja alinhado com o passivo  (valores a pagar) distribuído no tempo. A sua importância para gestão de recursos de longo prazo já é consagrada e amplamente utilizada pelas entidades de previdência complementar.

E qual a origem deste modelo de gerenciamento?

Ao contrário do que se possa imaginar, ele não foi criado pelas entidades de previdência, e sim pelas tesourarias de Instituições financeiras (Bancos).

Uma instituição financeira tem como finalidade a realização da intermediação financeira. Esta instituição capta recursos junto a investidores (os agentes superavitários em capital) e empresta para outras pessoas físicas e jurídicas (os agentes deficitários em capital).  Quando os tomadores de recursos pagam seus empréstimos à instituição financeira, ela devolve os recursos para os agentes os quais ela captou. Este é o processo de intermediação financeira.

E qual o risco desta intermediação financeira do ponto de vista da instituição?

Suponha que ela capte recursos através de um CDB, um Certificado de Depósito Bancário, com vencimento em 12 meses. Na prática a instituição financeira terá que devolver estes recursos captados somados a uma remuneração pactuada quando O CDB vencer.

Ao mesmo tempo ela empresta recursos para um agente deficitário, por exemplo uma empresa que precisa de capital.  A título de simplificação, vamos assumir que o empréstimo seja pago somente ao final de 36 meses. Em um mundo ideal, a instituição precisa renovar esta captação através do CDB por 3 vezes (12 meses vezes 3 = 36 meses) para que seu ativo (o que ela tem a receber) fique em equilíbrio com o passivo (o que ela tem a pagar). A instituição terá que calcular qual o prazo médio (duration) deste empréstimo para que tenha recursos em caixa quando o CDB vencer. Em outras palavras ela deve casar o ativo com o passivo.

Porém, no mundo real as coisas não ocorrem tão tranquilamente e nem linearmente.  Suponha que um problema nas finanças de quem tomou emprestado faça com que ele atrase os pagamentos. A Instituição precisa pagar o CDB mas ainda não recebeu os recursos emprestados.

E caso ela não consiga renovar a captação do CDB junto investidores – os agentes superavitários – ela terá que retirar recursos de outro lugar para fazê-lo. E aí começam os desequilíbrios financeiros.

Para evitar este risco de descasamento entre ativos e passivos as tesourarias de instituições financeiras desenvolveram o modelo de gerenciamento entre ativos e passivos, o chamado ALM.

Gestão de previdência também é gestão de ativos e passivos, isto é, gestão dos recursos a receber (ativos) e dos benefícios a pagar (passivos). E assim as entidades de previdência complementar adotaram este modelo com as devidas adaptações.

E que adaptações foram estas?

Diferente de bancos, entidades de previdência são gestores de longo prazo. Elas têm como principal finalidade a gestão de benefícios de seus participantes a qual envolve uma fase de acumulação de recursos e uma fase de pagamento de benefícios.

Na fase de acumulação de recursos as decisões sobre investimentos precisam ser tomadas para que estes recursos financeiros possam fazer frente ao passivo, isto é, os benefícios que serão concedidos aos seus participantes na fase de pagamentos. Na prática é a busca do equilíbrio entre ativos e passivos só que em prazos mais longos do que as instituições financeiras. E aqui a coisa complica um pouco.

Quando falamos de prazos mais longos estamos tratando de projeções. E estas envolvem estimativas sobre um futuro cheio de incertezas e riscos.

Para minimizar esta dificuldade pelo lado do passivo utilizamos o cálculo atuarial, uma vez que a estrutura do passivo não se altera radicalmente de um ano para o outro.  Já pelo lado do ativo é preciso projetar a rentabilidade dos investimentos financeiros, as quais estão sujeitas a oscilação do cenário econômico, cenário político, e mais um conjunto de variáveis relacionadas ao mercado de capitais.

Há uma série de técnicas e metodologias para que esta instabilidade do cenário seja tratada e que as projeções de rentabilidade estejam mais alinhadas com o passivo.

O que o ALM lhe diz é: Com todas as informações que possuímos hoje, a escolha de investimentos que lhe permitirá pagar o passivo, com a maior probabilidade possível, é esta.

Os modelos são perfeitos? Não. Na verdade não existe um modelo de previsão perfeito e quem vende isso para você está faltando com a verdade. Os modelos constroem estimativas e aproximações probabilísticas da realidade esperada. E exatamente pelo fato de que lidam com probabilidades é que eles são revisados regularmente para ajustes.

No próximo artigo vamos tratar das técnicas de construção do modelo ALM, suas diferenças, vantagens e desvantagens.

Até a próxima.

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