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Conversando com adultos

Escrito por
Álvaro da Luz


Quando leciono para turmas de gestores que atuam em investidores institucionais, sempre procuro criar discussões presentes em seu dia-a-dia. Conceituo a teoria com prática, afinal, estou falando com adultos e é importante no processo de ensino aprendizagem que estes façam a conexão entre o que é falado no curso com os seus problemas atuais.

Longe de eu ter as todas as respostas, ou se colocar como guru. Não tenho e acho que ninguém tem. É apenas a experiência de quem trabalhou nos últimos 15 anos gerindo recursos de investidores institucionais em todos os lados do balcão.

As pessoas procuram gurus de investimentos e acreditam neles. É um atalho de raciocínio que te faz procurar um telefone de um vidente na internet.

Você telefona para ele, e quando o vidente atende e pergunta quem está falando? você não questiona. Pois deveria. Se ele não conseguiu prever que você telefonaria naquele dia e naquela hora, porquê acha que ele vai prever o futuro?

Prever o futuro e impossível. Modelos de previsão que entregam resultados efetivamente – ou os que vi funcionar nos últimos 15 anos de mercados – são que aplicam a lógica bayesiana, ajustando os eventos, atribuindo probabilidades de ocorrência a eles, a medida que outros eventos determinantes vão se materializando. Vale um visita ao ótimo livro de Nate Silver (O Sinal e o Ruído) para ver mais sobre este tema.

Voltando à aula, um dos exercícios que gosto de fazer com os alunos é a interpretação do cenário político. Política define a economia, e como consequência, os mercados financeiros. Não há como fugir do tema.

A eleição presidencial importa. Claro que importa. Porém não do jeito que estamos acostumados no noticiário.

Nos temos a tendência de fulanizar o debate. Atribuímos características aos candidatos que, se nos agradam aumentam suas chances de receberem nossos votos, e se desagradam, reduzem as chances. Nosso cérebro costuma cometer este viés de escolha.

Há candidatos de todos os tipos. Desde um espectro mais à esquerda onde invadir propriedades privadas não é errado, passando pelo sonho de um estatismo anos 70 e a ilusão de que temos 200 milhões de trabalhadores além da população normal no país.

Há a esquerda mais moderada, afinal quanto esteve no poder governou muito mais ao centro, portanto, não consegue radicalizar agora.

Também temos o centro que procura se alinhar ao discurso mais moderado. Tão moderado que lhe falta energia, e passa a impressão de que há pouco para se fazer no país. Ledo engano.

Temos os que se apresentam como novos na política ou a nova política – ao gosto de cliente. Sempre fico com dúvida: ninguém em sã consciência compraria um carro com 24 anos de uso como novo, mas aceita a ideia de que alguém que esta na política há 24 anos é algo novo? Realmente não compreendo.

Bom, feitas as qualificações iniciais, qual o exercício proposto a eles?

Há um amplo espectro de candidatos. É bem provável que tenhamos uma eleição como 1989, onde a chegada ao segundo turno foi com um percentual não muito elevado dos votos totais.

A pergunta que deve ser feita: quais a reais chances de um candidato que invente uma espécie de Novíssima Matriz Econômica – o plano de governo que resultou em uma recessão gigante, ou que refute totalmente a ideia de que há necessidade urgente de um ajuste fiscal no país, seja eleito? Esta seria escolha de Política econômica que mudaria a trajetória dos preços dos ativos.

Quais as chances reais?

Para dar forma ao problema atribuímos probabilidades aos radicais, aos moderados e as chamadas novidades.

Dentro deste espectro, quais as reais chances de alguém assumir ( ser eleito)  sem endereçar os problemas fiscais, resumidamente chamados de reformas?

A conclusão do exercício é que as chances de alguém radicalizar na economia são baixas, independente de quem seja o candidato, dentro dos prováveis eleitos.

Há o risco de alguém que ainda não apareceu. Sim, há. Mas o exercício precisa lidar como os fatos postos à mesa, não sobre coisas que ainda podem acontecer, e se acontecerem mudarão, de fato, o espectro de análise.

Se as chances são baixas de uma guinada, a maior probabilidade, a partir de 2019 é uma continuação da política econômica atual.

Se você toma decisões de investimentos pensando no longo prazo, seu foco deve estar em 2019 para frente.

É claro que teremos volatilidade, alguns sustos em 2018. E para tanto há a necessidade de algum gerenciamento de riscos, e evitar grandes mudanças da noite para o dia.

Mas o foco deve ser 2019 para frente. Sem esquecer de controle de risco, mas olhando para os fatos: O trabalho do Banco Central foi espetacular. Juro baixo e inflação baixa é algo que não víamos há muito tempo. Neste nível então? Nunca vimos.

E qual o efeito deste fato sobre preço de ativos?

Falo disso na próxima semana.

1 abraço de quebrar costelas.

 

 

Uma resposta para “Conversando com adultos”

  1. Vivien disse:

    Excelente abordagem!

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